Qual é a maneira correta de se pronunciar a palavra recorde? “Récorde” ou “recórde”? Um procurador do Ministério Público de Minas Gerais entrou com uma ação de 10 milhões de reais contra a Rede Globo por “pronúncia errada” da palavra. Faltou o procurador procurar direito.

A palavra recorde é paroxítona (“recórde”), mas a pronúncia como proparoxítona (“récorde”) já é aceita há um bom tempo pelos dicionários – e é a mais usada no país. O Dicionário Houaiss, o mais respeitado do país, diz assim no verbete: “No Brasil, ocorre também como palavra proparoxitona: récorde.”

[Aviso: os acentos que coloquei na palavra “recorde” na legenda inicial do vídeo são meramente ilustrativos. Servem para destacar as duas formas de pronúncia, que é o motivo da discussão. Ou seja: a palavra não tem acento.]

A discussão é bastante antiga. Já em 2008, o jornalista e escritor Sérgio Rodrigues tratava desse tema em artigo na “Revista da Semana”:

“Afinal, devemos falar récorde, palavra proparoxítona, como a maioria dos locutores e comentaristas da TV? Ou, seguindo a recomendação de dez entre dez sábios, recórde, paroxítona? Trata-se de um caso clássico em que a língua da vida real vai para um lado e a dos estudiosos para o outro. (…)

“Em seu Dicionário de palavras e expressões estrangeiras, Luís Augusto Fischer observa com bom humor que há “duas pronúncias: a que os gramáticos preferem, rre-CÓR-dji, ou a do resto da humanidade, RRÉ-cor-dji”. É mais ou menos isso. Basta substituir, na frase de Fischer, “o resto da humanidade” por “a maioria dos brasileiros” que ela fica perfeita. (…)

“Como a língua falada sempre tem precedência sobre a escrita, é possível que um dia tal desacordo entre grafia e pronúncia seja resolvido com o acréscimo de um acento agudo. Mas também não é impossível que se eternize como idiossincrasia, algo comum na zona de fronteira das palavras que migram de um idioma a outro. Se show virou um vocábulo corriqueiro sem que sua estrangeiríssima grafia fosse – como provavelmente jamais será – adaptada, tudo pode acontecer.”

Sérgio Rodrigues voltou a tratar do tema numa publicação em sua rede social depois que a notícia do MP-MG foi divulgada (a imprensa informou que o procurador que propôs a ação teve fortíssima atuação contra as vacinas, inclusive na pandemia). Escreveu:

“Você pronuncia “recórde”? Direito seu. Aqui em casa, como parece ser o caso na maioria das casas brasileiras, sempre foi “récorde”. Depois de muito relutar, nossos melhores dicionários registram hoje essa forma. Bom para eles. Mas isso é secundário. A língua brasileira já a tinha adotado faz tempo”.

Aqui em casa também.