Adoro livros e filmes baseados em fatos reais. Mas é só dizer ou escrever “fatos reais” que lá vem uma saraivada de críticas, dizendo que a expressão é um pleonasmo, uma redundância. Se são fatos, ora, só podem ser reais. No final de semana, assisti ao filme “Caçadores de Obras Primas”. Logo nos primeiros segundos, apareceu o aviso: “Based on a true story”. A legenda traduziu para “Baseado em fatos”. Detestei, ficou horrível. Baseado em fatos?!? Como assim? Por que cancelaram “fatos reais”? Tem gente sugerindo mudar para “história real” para encerrar a discussão. Também não concordo. Quero o direito de escrever, dizer, ler e ouvir “Baseado em fatos reais”.
A meu favor, encontrei um artigo no site “Gramática sarcástica da Língua Portuguesa”, cujo autor usa o bem-humorado pseudônimo Evandro Debochara. Em determinado trecho do artigo “Caçadores de pleonasmos ignoram fatos reais da língua” (22/05/2024), o autor escreveu: “Hoje em dia, nenhuma pessoa pode dizer “baseado em fatos reais” que já é logo enquadrada como viciada e recebe ordem de prisão: “Ora, todo fato é real… caso contrário não é fato”, argumentam os logicistas. Não! NEM TODO FATO É (NECESSARIAMENTE) (CONSIDERADO) REAL, e é realmente estranho que esses devotos fervorosos da lógica NUNCA tenham refletido, por um só minuto, que um fato pode ser qualificado como fictício, suposto, hipotético, improvável, imaginário, inventado, irreal etc., ou seja, referido de várias formas distintas do sentido de “real”. Se ao substantivo “fato” podem ser dadas essas qualificações – especificando-se o tipo de fato ao qual se deseja referir –, fica claro que associar “fato” com a palavra “real” é um uso gramaticalmente facultativo… ou mesmo muito apropriado e necessário, dependendo do contexto.”
Também em minha defesa, recorro ao escritor e revisor Gabriel Lago, criador da página “Língua e tradição” no Facebook. Ele cita o uso de “fatos reais” e “fatos verdadeiros” em textos de alguns de nossos maiores autores: “Fica bem clara a função enfática do adjetivo para reforçar a veracidade de um fato, bem como a possibilidade de um fato não ser real”, escreveu Lago (“Fatos reais? Sim, fatos reais!”, 22/05/2024). Vamos aos exemplos:
“Aquela história que eu formulei é um fato real; sucedeu com os meus filhos.”
(Machado de Assis, em “Esaú e Jacó”, 1904).
“O autor declara que a história é verdadeira, que é uma história de ontem, um fato real, com personagens vivos; a ação passa nesta corte, e começa no dia de Reis do ano passado…”
(Machado de Assis, no artigo “J.M. de Macedo: o culto do dever”, publicado na revista “Semana Literária”, 1866).
“Não! o tempo não existe; a ideia dele é toda relativa; ao passo que o amor não tem relações, nem admite leis. É um fato real; existe! existe, que o sinto palpitar aqui dentro…”
(Aluísio Azevedo, em “A Condessa Vésper”, 1882).
“E dava-se ainda um outro fenômeno bem curioso: a vida real parecia-lhe agora o sonho, e o sonho afigurava-se-lhe a vida real; os fatos verdadeiros embaralhavam-se-lhe na mente, confundiam-se uns com os outros…”
(Aluísio Azevedo, em “O Homem”, 1887).
“…e achava simples, naturais, evidentes, os fatos que sua imaginação fantasiava.”
(José de Alencar, em “Encarnação”, 1893).
Para saber mais, recomendo a leitura:
https://www.gramaticasarcastica.com/post/ca%C3%A7adores-de-pleonasmos-ignoram-fatos-reais-da-l%C3%ADngua
https://www.gramaticasarcastica.com/post/por-maioria-de-votos-stf-descriminaliza-v%C3%A1rios-pleonasmos-tratados-como-viciosos

‘Fatos reais’ é uma tremenda redundância e fim de papo !