“Grande Sertão: Veredas”, uma das obras mais importantes da literatura brasileira, está muito perto de receber uma nova tradução em inglês. A primeira, feita em 1963, seis anos após o lançamento no Brasil, é bastante contestada e já saiu de circulação. Com um vocabulário particular e de difícil adaptação aos outros idiomas, o livro de Guimarães Rosa é um enorme desafio para os tradutores estrangeiros. Acostumada a trabalhar com grandes autores brasileiros, a australiana Alison Entrekin, radicada no Brasil há 18 anos, aceitou o desafio. Depois de traduzir para o inglês livros como “Cidade de Deus” (de Paulo Lins, 1997) e “Budapeste” (de Chico Buarque, 2003), ela resolveu se debruçar nas páginas que narram a história de Riobaldo, Diadorim e companhia. São delas também traduções de obras de Clarice Lispector, Daniel Galera, Adriana Lisboa, Eva Furnari e Cristovão Tezza, entre outros. “Já traduzi autores espanhóis e portugueses, mas desisti porque não consigo extrair todos os aspectos culturais desses países”, declarou Entrekin ao Blog do Curioso.

Alison, que no momento está terminando de traduzir “Meu Pé de Laranja Lima” (de José Mauro de Vasconcelos, 1968), passou os últimos dois anos buscando quem pudesse financiar o trabalho. “Quando me passaram o desafio, em 2014, eu tive que correr atrás dos financiadores”, explica. “Precisava pagar o salário dos colaboradores, que teriam que dedicar algum tempo para me ajudar. No início, tentei a Lei Rouanet, mas descobri que precisaria resolver muitos entraves burocráticos e acabei desistindo. Tentei também sites de crowdfunding (financiamento coletivo) até que pensei que seria melhor tentar um patrocínio”.
Agora, com o apoio do Itaú Cultural, finalmente o projeto poderá ser concluído. Mas não será fácil. “Logo que cheguei ao Brasil, tentei ler o livro e patinei, não consegui entender muita coisa”, conta Alison. “Nesse trabalho, eu penei muito para começar a tradução. O começo de um livro sempre é mais difícil, mas nesse foi mais ainda. Para ser bem sincera, achei que nunca ia conseguir viabilizar. Fui tocando, mas sempre achei que seria muito difícil”. Segundo ela, o próprio processo de tradução “dá um livro”, tamanha a dificuldade. “Na parceria com o Itaú, ficou decidido que faremos uma espécie de diário de tradução. Minha ideia é criar um blog ou uma página de Facebook, algo que me faça ter uma interação com o público”.

Com todos os detalhes acertados, os trabalhos já podem recomeçar. “Falta traduzir praticamente o livro inteiro. Fiz pouca coisa e do que fiz já quero mudar bastante. Se você der um trecho para cinco brasileiros, terá cinco interpretações diferentes. Mas acredito que o Guimarães tinha algo em mente, então preciso extrair isso”, acredita a australiana. “Além disso, as quebras de sintaxe que dão um efeito em português, não dão o mesmo efeito em inglês. Então, preciso criar outras. Isso sem falar nos neologismos, nas aliterações. É mais que uma tradução: é uma recriação”, sintetiza. A obra de Guimarães Rosa, que “não tem nada a ver” com os romances que ela está acostumada a traduzir, deve ter um público bastante específico: “Não será um best-seller. Será um livro de leitura difícil, densa. Quem quiser uma versão fácil pode ler a de 1963. O leitor desse livro será um leitor acostumado a livros complicados”, garante.
Nem mesmo encontrar um nome para o livro será tarefa fácil. Em 1963, ele foi traduzido para “The Devil To Pay in the Backlands”. “The Devil To Pay” é um ditado que significa algo como “o diabo que pague”, enquanto “Backlands” significa “sertões”. Para Alison, James L. Taylor e Harriet de Onis encontraram uma boa tradução, convidativa para os leitores, mas que empobrece o conteúdo da obra. “Eu preferia manter o título em português, mas no momento temos “Bedeviled in the Badlands”, que eu considero bom. “Bedeviled” é um sinônimo para “perturbado”, mas tem ali também um “devil” (diabo), que aparece bastante ao longo da história”, diz ela. “Badlands” é uma paisagem muito semelhante a do sertão brasileiro.
Duas editoras internacionais já se mostraram interessadas em publicar a tradução.
