Um dos prédios mais charmosos da cidade está passando por transformações. As trepadeiras que cobriam toda a fachada de 72m² do Edifício São Carlos foram despejadas aos poucos em uma caçamba na Rua Lourenço de Castanho. O número 930 da Avenida República do Líbano, em frente ao Parque Ibirapuera, tornou-se famoso por sua decoração e também por ter sido moradia do estilista e deputado federal Clodovil Hernandes, falecido em 2009. Há três meses, alegando reformas estruturais, o conselho gestor do local decidiu podar todas as plantas da fachada. Por enquanto, somente as folhas de falsa-vinha da parede principal não foram retiradas. “Perdeu o charme”, afirma Adeilton Rolin, funcionário do local há 14 anos. “Estamos colocando revestimento novo para fazermos tratamento de ferragens”.

O Edifício São Carlos foi inaugurado em 1954 e, desde então, nunca passou por reformas. As primeiras sementes da falsa-vinha foram plantadas junto com o nascimento do prédio. Hoje, ao todo, são 24 troncos da planta circundando as quatro paredes do edifício, dividido por dez apartamentos de 80m² cada um – o condomínio é de 1.200 reais por mês. O planejamento é para que as folhas sejam colocadas novamente até o final de 2015. De acordo com o biólogo da USP, Milton Groppo, o trâmite não é tão simples assim. “Demorará aproximadamente uma década para voltar a ser como antes, isso se crescer de forma natural”, afirma. Sobre as paredes que voltarão a ser revestidas com plantas, há uma desavença: o funcionário Adailton ouviu que as trepadeiras serão devolvidas em toda a fachada, mas o zelador Aguinaldo garante que somente a parede da Rua Lourenço Castanho será coberta com a falsa-vinha.

Apesar da alegação de “reforma estrutural”, havia reclamações por parte dos condôminos por causa do grande número de insetos que se alocavam nas plantas e também pelos apartamentos estarem sempre frios. Neste ano, uma raiz da planta nasceu dentro de um encanamento e a calçada teve que ser quebrada para reforma. O encarregado-geral da obra, Geraldo Lourenço Pinheiro, sentiu na pele as críticas dos moradores. “Quatro marimbondos pregaram na minha cara, comecei a dar socos para tirá-los e acabei quebrando meus dentes”, conta Geraldo, de 67 anos. “Gastei 500 reais com dentadura.” Além dos marimbondos, o encarregado-geral levou uma picada de abelha no pescoço. A obra está sendo tocada pela Project Engenharia, que deve finalizar os trabalhos até março de 2015, para depois ser feito o paisagismo. As paredes permanecerão na cor bege até os troncos voltarem a crescer. Apesar de alguns moradores celebrarem a retirada das plantas, Adailton Rolin garante que um antigo inquilino certamente esbravejaria sobre a reforma do prédio. “O Clodovil ficaria doido da vida, xingaria até a última geração por terem tirado as trepadeiras”, diz. “Ele adorava ficar andando pelo prédio, olhando as plantas.”
Atualização em 23 de fevereiro de 2015: