Minha encomenda no site Estante Virtual chegou há alguns dias. Comprei o livro “O Cavalo que Proclamou a República”, do diplomata brasileiro Manoel Pio Corrêa, lançado em 1999 pela Editora Expressão e Cultura. O texto de abertura é que batiza o livro e hoje é um dia bem apropriado para destacar alguns trechos.
Corrêa relata que o escritor Coelho Netto, nas páginas da Revista da Academia Brasileira de Letras, contou “haver estado ao lado de [Marechal] Deodoro [da Fonseca] durante a jornada de 15 de novembro de 1889, e afirma que o Marechal montava, naquela ocasião, ‘um fogoso ginete negro’, cujo nome, porém, é omitido”.

E Corrêa escreveu: “Pois bem, esse cavalo é um impostor, apadrinhado indevidamente pelo ilustre escritor patrício. No dia em que a ‘Nação assistiu bestificada à proclamação da República’, na frase de um historiador contemporâneo, o Marechal Deodoro não montava um ‘fogoso ginete negro’, mas um mansíssimo cavalo baio, da cavalhada do 1º Regimento de Cavalaria, mais exatamente o cavalo nº 6, do I Esquadrão daquele Regimento; simples cavalo de tropa, ‘cavalo raso’, por assim dizer, nem sequer montada oficial, quanto mais montada de general”.
Por que o Marechal Deodoro escolheu um cavalo assim? Corrêa prossegue: “Pela manhã, o Marechal viera de sua residência em carruagem, sofrendo muito de reumatismo e de uma gota felizmente civil e não militar, ao quartel do Regimento, em São Cristóvão, para conseguir ali um cavalo. Os achaques do Marechal fizeram escolher justamente o cavalo menos fogoso, o bom baio nº 6, pois Deodoro, no estado em que estava, não era só incapaz de ‘boliar a perna’ por cima de um cavalo, como foi necessária a assistência de várias pessoas para içá-lo e empurrá-lo até a sela – operação que haveria sido impossível se a outra parte interessada fosse um ‘fogoso corcel’, e não um pacífico maturrango”.
De onde vem toda essa certeza do autor? Corrêa responde no parágrafo seguinte: “Ainda conheci, em minha juventude, duas testemunhas oculares desta cena: o General Tasso Fragoso e o Marechal Ilha Moreira, ambos jovens oficiais então, servindo às ordens do Marechal Deodoro. Eu mesmo vi, 50 anos depois da Proclamação da República, uma pequena placa aposta junto à baia que fora ocupada meio século antes pelo imortal baio nº 6, relembrando o seu papel decisivo na Proclamação da República. Decisivo, pois sem ele o Marechal estaria de pé: pode-se imaginar Deodoro, a pé e capengando, tentando, apoiado em uma bengala, galvanizar as tropas? Ou, pior ainda, estatelando-se na frente da tropa formada e do povo bestificado, derrubado ao chão por um cavalo menos dócil, menos republicado? Pode-se aquilatar assim o papel importante, essencial mesmo, do baio nº 6 na Proclamação da República”.
O cavalo baio nº 6 nunca mais seria montado até a sua morte, em 1906.
